Diário de Bordo #1



Sábado, 03 de Agosto , 16:45

Hoje passei por uma problema na aeronave enquanto estava viajando para Salvador e nisso, a reflexão nossa de cada dia teve que aparecer.

Confesso que um filme passou pela minha cabeça. Aproveitei para ver as últimas mensagens que eu mandei para os meus amigos e familiares, parei para pensar se estava chateada ou brigada com alguém. Fiquei me perguntando: e se os pilotos não detectassem o problema no equipamento de despressurização, o avião não tivesse pousado em Guarulhos e eu não chegasse ao meu destino final, o que de bom eu teria deixado para trás? Eu fiz diferença na vida de alguém? As pessoas sentiriam a minha falta? O que guardariam de Priscila Regis ou o que saberiam da @priscaregis? A vida é mesmo um sopro. Em um dia você está rindo e brincando e no outro, pode cochilar e não acordar.

Pousamos em Guarulhos e quando pude ligar a internet, vi meus últimos stories. Não me envergonhei deles, pelo contrário, por mais idiotices que sempre às vezes contenha neles, estou feliz por estar sendo eu mesma nos últimos tempos. Tenho vivido da melhor maneira que eu posso, tenho sonhado e realizado, tenho trabalhado muito e tenho sido eu mesma nas redes sociais e fora dela também (mesmo que com filtros e uma muita make).

Eu tenho dito Eu te amo sempre que tenho chance e para quem realmente merece. Eu tenho pedido perdão quando necessário. Eu ainda estou muito longe de ser a melhor pessoa da face da terra, mas estou feliz de estar tentando um pouquinho a cada dia. Mesmo às vezes perdendo a paciência com as pessoas que andam devagar no trajeto Linha Lilás do metrô x Linha Esmeralda de trem. Mesmo me estressando com quem fura fila no terminal Capão Redondo.

Se eu morresse, e olhassem meu blog, meu face e meu instagram, veriam que levei uma vida quase perfeita baseada, claro, nos recortes que eu faço e permito que vejam. Quem convive diariamente comigo no trabalho, lembraria da Escola Priscila Regis de Etiqueta, de como eu falo demais quando me dão moral e de como eu posso ser sem filtro quase sempre.

Infelizmente, se eu morresse, seria um dia infeliz para o dono da casa onde eu moro, pois enquanto lembrava se estava brigada com ou alguém ou se estava devendo algo, me lembrei que o dia anterior que eu só pensava em #sextar e nas férias, me esqueci de pagar o aluguel. HAHA

Bom, brincadeiras às parte, eu sinto que se eu fosse hoje, eu iria feliz sabendo que eu vivi, chorei e sorri, sonhei e realizei muitas vezes, mas não perdi a minha fé e não abandonei minhas convicções (algumas foram quase rsrs) e agora aço terapia.

Enfim, se você leu até aqui, Parabéns e Obrigada, você me ama mesmo (ou é apenas curioso) e está me dando um real de moral. Agora me dê outro e diz aí os comentários:

O que você pensaria ou diria se a pessoa que vos escreve fosse para o andar de cima?


Com amor e uma experiência de quase-quase-morte,
Priscila Regis

Obs.: Caso você tenha ficado curioso, assim que o avião pousou eu Guarulhos eu paguei o aluguel, fiquem tranquilos que eu não sou o Seu Madruga haha

Caminhos

Foto por  Joillyane
Senti que eu estava parando. Logo eu, que não aguento esperar do lado direito da escada rolante, que corre mais do que anda e que está sempre acelerando o passo a fim de evitar atrasos.

Eu não posso culpar ninguém senão a mim mesma. Eu me permiti isso. Eu achei que era o certo e necessário a se fazer, mas à medida que o tempo passava, o meu coração se apertava mais e eu percebi que muitas coisas tinham mudado.

Custei a aceitar que o mapa que eu seguira por tanto tempo não me levaria ao que eu esperava no início. Custei a aceitar que o tempo indicado no gps seria maior do que o que eu pretendia esperar e aos poucos, fui forçada a mudar a rota, que prontamente foi ajustada pelo gps e foi me levando onde eu nem sequer sonhei.

Embora agora ele não me diga qual o destino final, sei que não é o mesmo caminho de antes. Preciso seguir sozinha e descobrir o caminho que vai mudando e melhorando a cada dia. Nesse caminho eu tenho me encontrado com o passado e com os medos antigos, além de parar para descansar mais do que antes. Nem todos os dias são fáceis, vez ou outra eu acho uma pedra no caminho. Às vezes caio, choro, mas logo em seguida me levanto, afinal ainda não cheguei ao meu destino final.

Se me encontrar pelo caminho, me ofereça uma água, um acalento, um sorriso. Sei que haverão dias que eles serão extremamente necessários pra eu continuar seguindo.

Era sol que me faltava

Photo by Nick Fewings on Unsplash
Mais um casal que eu admirava se desfez. Acabaram de anunciar no instagram deles, na mesma conta onde eles compartilhavam com o mundo a alegria de uma vida compartilhada. Foi daqueles posts que você não sabe se curte, não curte ou o que comenta.

Já faz um tempo que eu vinha remoendo esses pensamentos na minha cabeça. Eu realmente fiquei triste com essa e muitas outras separações de casais que eu "shipava" e devo confessar que saber de seus rompimentos me abalaram um pouco, mas também me fizeram pensar sobre a imagem que criamos de nós e de nossos relacionamentos na internet.

Quando um fim semelhante chegou para mim, eu senti de perto o desprazer de ter pessoas questionando os motivos e dizendo "ué, mas vocês eram perfeitos um para o outro". Me culpei porque notei o quanto eu demonstrava isso de alguma forma. Fiquei feliz por não ter feito nenhum comentário indelicado na foto de alguém que anunciou um rompimento. Me senti mal por um dia ter dito a frase "ah, mas quem sabe vocês não voltam?" para uma amiga que terminou um relacionamento por perceber que ele não a levaria a nenhum lugar além das decepções.

Na internet, somos sempre felizes, não tem brigas, não tem desavenças, ciúmes aparentes. Não tem bafo ou mal humor, não tem falta de dinheiro ou doença... E nem digo que eu gostaria de ver essas coisas o tempo todo, porque na real não é o que a gente procura mesmo ao rolar o feed. Mas o fato é que estamos tão acostumados a viver realidades cheias de filtros e pensadas para compor um feed, fora disso, a gente dá unfollow e não quer ter igual.

Eu tenho vivido os meus dias tentando não olhar a vida com o filtro do outro. Afinal, cada um tem o seu tempo, seu momento, suas dificuldades e vitórias. O mal de olhar a grama do vizinho sempre mais verde, é ser picado pelo bichinho verde ( inveja, caso não tenha pego a referência rs). Se a gente vive as nossas vitórias comparando às do outro, certeza que vamos viver uma vida mesquinha e sem proveito. Talvez a grama que você olha esteja verde aos seus olhos, mas o dono não veja bem assim. Depende

Nesse momento me lembro da música do Tiago Iorc, Era sol que me faltava:


A última vez que você se deixou
Livre, sem se retocar
Sem se Instagramear
Onde foi, onde foi

Me lembra da época que eu fazia de tudo por uma foto perfeita. Não que hoje eu tenha deixado isso totalmente de lado, mas antes era bem mais. Lembro que isso fazia com que todos achassem que eu estava "cheia da grana", viajando e visitando tudo que é canto, quando eu até saía mesmo, mas sempre buscando os programas mais free que você respeita ou, como se diz aqui em Sampa, na faixa hahaha.

A gente perde tanto tempo desenhando um mundo perfeito nas redes sociais e na vida, que esquece realmente o que é viver a verdade, que é ter o direito de sentir tudo e nada, sem medo de julgamentos alheios. Eu tenho me permitido viver os dias sem ter medo de demonstrar e mostrar o que eu quero e o que sou, me preparando para as coisas boas que hão de vir. Que tal você tentar também?

Li e agora indico: A Anatomia de uma Dor - Um Luto em Observação

Foto via @umtantodela
Em 2005, passei por algo que até então, nunca tinha passado em minha mente. Meu pai, no auge de seus 52 anos, veio à óbito e minha família e eu parecíamos estar em um filme de terror sem um "the end". Não era mentira. Meu pai de fato tinha ido embora, e pior, eu não tivera tempo de dizer adeus.

Ele sempre sofreu com bronquite asmática, e portanto, era de costume ter crises de falta de ar e necessitar ir até o hospital receber medicação mais forte. As vezes ia de noite, passava a madrugada e pela manhã, lá estava eu sendo acordada pelo som de sua voz. Eu já estava acostumada a isso, quando chegou um dia que minha mãe voltou sozinha, e com o semblante abatido seguido de choro sem fim, percebi que não era o mesmo estado de sempre. E não foi. Meu pai ficou por 28 dias na UTI em coma induzido, até que no dia 20 de novembro, à 00:30 ele faleceu.

Durante o período em que ele esteve na UTI só pude visitá-lo uma vez. Ele estava inconsciente, mas como eu tinha visto na televisão diversas vezes que a pessoa mesmo em coma, escuta tudo que dizem a ela, tratei de dizer o quanto sentia saudade e o quanto o amava. E segurei o choro enquanto estava lá. Eu de fato tinha esperanças que ele sairia de lá, e essa seria mais uma de suas incríveis história de fé e mudança. Não foi. E por muito tempo eu não entendi. Por muito tempo eu questionei a Deus porque tinha levado meu pai de mim. Ano passado, no dia dos pais, algo em mim mudou, foi o que escrevi no texto Dia dos Pais. E de lá para cá eu vinha aceitando. Foi quando me apresentaram o livro de C.S. Lewis, A Anatomia de uma Dor - Um Luto em Observação, e eu me interessei em ler.

Esse livro é maravilhoso. Ele não foi um livro escrito exatamente com a finalidade de ajudar outros, é a junção de fragmentos de relatos do Lewis, algumas vezes em diário, outras em simples rascunhos, que posteriormente foi organizado e publicado pelo seu enteado. As páginas do livro são repletas de pensamentos de Lewis ao perder sua amada esposa e o seu descontentamento e luto perante a situação.

Me vi nas páginas, pois muitos dos questionamentos dele foram os meus. Me vi muito egoísta. querendo que meu pai tivesse sobrevivido sem levar em consideração que ele poderia voltar do coma repleto de sequelas que o impediriam mais ainda de viver. Notei a importância de amar e receber amor enquanto temos tempo. 

Hoje esse é o livro que eu recomendo que todos leiam, principalmente se estiverem passando por momento de luto e dor. Através dele eu pude modificar meu pensamento e analisar a vida e a morte de uma maneira diferente. Ele mudou minha ótica e me ajudou a superar.

Deixo agora alguns trechos para você ter noção do quão maravilhoso esse livro é:

“Nesse meio tempo, onde está Deus? Esse é um dos sintomas mais inquietantes. Quando você está feliz, muito feliz, não faz nenhuma ideia de vir a necessitar dEle, tão feliz, que se vê tentado a sentir suas reivindicações como uma interrupção; se se lembrar e voltar a Ele com gratidão e louvor, você será – ou assim parece – recebido de braços abertos. Mas, volte-se para Ele, quando estiver em grande necessidade, quando toda outra forma de amparo for inútil, e o que você encontrará? Uma porta fechada na sua cara, ao som do ferrolho sendo passado duas vezes do lado de dentro. Depois disso, silêncio.”

“Não é possível ver nada de maneira adequada enquanto os olhos estiverem embaçados de lágrimas. Você não pode, na maioria das situações, conseguir o que deseja se o fizer desesperadamente: o resultado é que não conseguirá aproveitá-lo ao máximo."

“Aos poucos passei a sentir que a porta não está mais fechada e aferrolhada. Será que foi minha necessidade frenética que a fechou na minha cara? Quando nada há em sua alma exceto um grito de socorro tavlez seja o exato momento em que Deus não o pode atender: você é como o homem que se afoga e que não pode ser ajudado por tanto se debater. É possível que seus gritos repetidos o deixem surdo à voz que você esperava ouvir.”

A Anatomia de Uma Dor – Um Luto em Observação, C. S. Lewis. Ed. Vida.

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